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Revista Espírita sob direção Allan Kardec colhendo fatos

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Se não se tratasse senão de uma coleta de fatos, a tarefa

seria fácil; eles se multiplicam em toda parte com tal rapidez que

não faltaria matéria; mas os fatos, por si mesmos, tornam-se

monótonos pela repetição e, sobretudo, pela similitude. O que é

necessário ao homem racional é algo que lhe fale à inteligência.

Poucos anos se passaram desde o surgimento dos primeiros

fenômenos, e já estamos longe da época das mesas girantes e

falantes, que foram suas manifestações iniciais. Hoje, é uma ciência

que revela todo um mundo de mistérios, tornando patentes as

verdades eternas que apenas pelo nosso espírito eram pressentidas;

é uma doutrina sublime, que mostra ao homem o caminho do dever,

abrindo o mais vasto campo até então jamais apresentado à

observação filosófica. Nossa obra seria, pois, incompleta e estéril

se nos mantivéssemos nos estreitos limites de uma revista anedótica,

cujo interesse rapidamente se esgotasse.

Talvez nos contestem a qualificação de ciência, que damos

ao Espiritismo. Certamente não teria ele, em nenhum caso, as características

de uma ciência exata, e é precisamente aí que reside o erro dos que o

pretendem julgar e experimentar como uma análise química ou um

problema matemático; já é bastante que seja uma ciência filosófica.

Toda ciência deve basear-se em fatos, mas os fatos, por si sós, não

constituem a ciência; ela nasce da coordenação e da dedução lógica

dos fatos: é o conjunto de leis que os regem. Chegou o Espiritismo ao

estado de ciência? Se por isto se entende uma ciência acabada, seria

sem dúvida prematuro responder afirmativamente; entretanto, as

observações já são hoje bastante numerosas para nos permitirem

deduzir, pelo menos, os princípios gerais, onde começa a ciência.

O exame raciocinado dos fatos e das conseqüências que

deles decorrem é, pois, um complemento sem o qual nossa publicação

seria de medíocre utilidade, não oferecendo senão um interesse muito

secundário para quem quer que reflita e queira inteirar-se daquilo

que vê. Todavia, como nosso fim é chegar à verdade, acolheremos

todas as observações que nos forem dirigidas e tentaremos, tanto

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quanto no-lo permita o estado dos conhecimentos adquiridos, dirimir

as dúvidas e esclarecer os pontos ainda obscuros. Nossa Revista será,

assim, uma tribuna livre, em que a discussão jamais se afastará das

normas da mais estrita conveniência. Numa palavra: discutiremos,

mas não disputaremos. As inconveniências de linguagem nunca foram

boas razões aos olhos de pessoas sensatas; é a arma dos que não

possuem algo melhor, voltando-se contra aqueles que dela se servem.

Embora os fenômenos de que nos ocupamos se tenham

produzido, nos últimos tempos, de maneira mais geral, tudo prova

que têm ocorrido desde as eras mais recuadas. Não há fenômenos

naturais nas invenções que acompanham o progresso do espírito

humano; desde que estejam na ordem das coisas, sua causa é tão

velha quanto o mundo e os seus efeitos devem ter-se produzido em

todas as épocas. O que testemunhamos, hoje, portanto, não é uma

descoberta moderna: é o despertar da Antigüidade, desembaraçada

do envoltório místico que engendrou as superstições; da Antigüidade

esclarecida pela civilização e pelo progresso nas coisas positivas.

A conseqüência capital que ressalta desses fenômenos

é a comunicação que os homens podem estabelecer com os seres

do mundo incorpóreo e, dentro de certos limites, o conhecimento

que podem adquirir sobre o seu estado futuro. O fato das

comunicações com o mundo invisível encontra-se, em termos

inequívocos, nos livros bíblicos; mas, de um lado, para certos céticos,

a Bíblia não tem autoridade suficiente; por outro lado, para os

crentes, são fatos sobrenaturais, suscitados por um favor especial

da Divindade. Não haveria aí, para todo o mundo, uma prova da

generalidade dessas manifestações, se não as encontrássemos em

milhares de outras fontes diferentes. A existência dos Espíritos, e

sua intervenção no mundo corpóreo, está atestada e demonstrada

não mais como um fato excepcional, mas como um princípio geral,

em Santo Agostinho, São Jerônimo, São João Crisóstomo, São

Gregório Nazianzeno e tantos outros Pais da Igreja. Essa crença

forma, além disso, a base de todos os sistemas religiosos. admitiram

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na os mais sábios filósofos da Antigüidade: Platão, Zoroastro,

Confúcio, Apolíneo, Pitágoras, Apolônio de TiaJ A N E I R O D E 1 8 5 8

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Se não se tratasse senão de uma coleta de fatos, a tarefa

seria fácil; eles se multiplicam em toda parte com tal rapidez que

não faltaria matéria; mas os fatos, por si mesmos, tornam-se

monótonos pela repetição e, sobretudo, pela similitude. O que é

necessário ao homem racional é algo que lhe fale à inteligência.

Poucos anos se passaram desde o surgimento dos primeiros

fenômenos, e já estamos longe da época das mesas girantes e

falantes, que foram suas manifestações iniciais. Hoje, é uma ciência

que revela todo um mundo de mistérios, tornando patentes as

verdades eternas que apenas pelo nosso espírito eram pressentidas;

é uma doutrina sublime, que mostra ao homem o caminho do dever,

abrindo o mais vasto campo até então jamais apresentado à

observação filosófica. Nossa obra seria, pois, incompleta e estéril

se nos mantivéssemos nos estreitos limites de uma revista anedótica,

cujo interesse rapidamente se esgotasse.

Talvez nos contestem a qualificação de ciência, que damos

ao Espiritismo. Certamente não teria ele, em nenhum caso, as características

de uma ciência exata, e é precisamente aí que reside o erro dos que o

pretendem julgar e experimentar como uma análise química ou um

problema matemático; já é bastante que seja uma ciência filosófica.

Toda ciência deve basear-se em fatos, mas os fatos, por si sós, não

constituem a ciência; ela nasce da coordenação e da dedução lógica

dos fatos: é o conjunto de leis que os regem. Chegou o Espiritismo ao

estado de ciência? Se por isto se entende uma ciência acabada, seria

sem dúvida prematuro responder afirmativamente; entretanto, as

observações já são hoje bastante numerosas para nos permitirem

deduzir, pelo menos, os princípios gerais, onde começa a ciência.

O exame raciocinado dos fatos e das conseqüências que

deles decorrem é, pois, um complemento sem o qual nossa publicação

seria de medíocre utilidade, não oferecendo senão um interesse muito

secundário para quem quer que reflita e queira inteirar-se daquilo

que vê. Todavia, como nosso fim é chegar à verdade, acolheremos

todas as observações que nos forem dirigidas e tentaremos, tanto

R E V I S T A E S P Í R I T A

24

quanto no-lo permita o estado dos conhecimentos adquiridos, dirimir

as dúvidas e esclarecer os pontos ainda obscuros. Nossa Revista será,

assim, uma tribuna livre, em que a discussão jamais se afastará das

normas da mais estrita conveniência. Numa palavra: discutiremos,

mas não disputaremos. As inconveniências de linguagem nunca foram

boas razões aos olhos de pessoas sensatas; é a arma dos que não

possuem algo melhor, voltando-se contra aqueles que dela se servem.

Embora os fenômenos de que nos ocupamos se tenham

produzido, nos últimos tempos, de maneira mais geral, tudo prova

que têm ocorrido desde as eras mais recuadas. Não há fenômenos

naturais nas invenções que acompanham o progresso do espírito

humano; desde que estejam na ordem das coisas, sua causa é tão

velha quanto o mundo e os seus efeitos devem ter-se produzido em

todas as épocas. O que testemunhamos, hoje, portanto, não é uma

descoberta moderna: é o despertar da Antigüidade, desembaraçada

do envoltório místico que engendrou as superstições; da Antigüidade

esclarecida pela civilização e pelo progresso nas coisas positivas.

A conseqüência capital que ressalta desses fenômenos

é a comunicação que os homens podem estabelecer com os seres

do mundo incorpóreo e, dentro de certos limites, o conhecimento

que podem adquirir sobre o seu estado futuro. O fato das

comunicações com o mundo invisível encontra-se, em termos

inequívocos, nos livros bíblicos; mas, de um lado, para certos céticos,

a Bíblia não tem autoridade suficiente; por outro lado, para os

crentes, são fatos sobrenaturais, suscitados por um favor especial

da Divindade. Não haveria aí, para todo o mundo, uma prova da

generalidade dessas manifestações, se não as encontrássemos em

milhares de outras fontes diferentes. A existência dos Espíritos, e

sua intervenção no mundo corpóreo, está atestada e demonstrada

não mais como um fato excepcional, mas como um princípio geral,

em Santo Agostinho, São Jerônimo, São João Crisóstomo, São

Gregório Nazianzeno e tantos outros Pais da Igreja. Essa crença

forma, além disso, a base de todos os sistemas religiosos. AdmitiramJ

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na os mais sábios filósofos da Antigüidade: Platão, Zoroastro,

Confúcio, Apuleio, Pitágoras, Apolônio de Tiana e tantos outros.

Nós a encontramos nos mistérios e nos oráculos, entre os gregos,

os egípcios, os hindus, os caldeus, os romanos, os persas, os chineses.

Vemo-la sobreviver a todas as vicissitudes dos povos, a todas as

perseguições e desafiar todas as revoluções físicas e morais da

Humanidade. Mais tarde a encontramos entre os adivinhos e

feiticeiros da Idade Média, nos Willis e nas Walkírias dos

escandinavos, nos Elfos dos teutões, nos Leschios e nos

Domeschnios Doughi dos eslavos, nos Ourisks e nos Brownies da

Escócia, nos Poulpicans e nos Tensarpoulicts dos bretões, nos Cemis

dos caraíbas, numa palavra, em toda a falange de ninfas, de gênios

bons e maus, nos silfos, gnomos, fadas e duendes, com os quais

todas as nações povoaram o espaço. Encontramos a prática das

evocações entre os povos da Sibéria, no Kamtchatka, na Islândia,

entre os indígenas da América do Norte e os aborígenes do México

e do Peru, na Polinésia e até entre os estúpidos selvagens da Nova

Holanda.

Sejam quais forem os absurdos que cercam essa crença

e a desfiguram segundo os tempos e os lugares, não se pode discordar

de que ela parte de um mesmo princípio, mais ou menos deturpado.

Ora, uma doutrina não se torna universal, não na e tantos outros.

Nós a encontramos nos mistérios e nos oráculos, entre os gregos,

os egípcios, os hindus, os caldeus, os romanos, os persas, os chineses.

Vemo-la sobreviver a todas as vicissitudes dos povos, a todas as

perseguições e desafiar todas as revoluções físicas e morais da

Humanidade. Mais tarde a encontramos entre os adivinhos e

feiticeiros da Idade Média, nos Willis e nas Walkírias dos

escandinavos, nos Elfos dos teutões, nos Leschios e nos

Domeschnios Doughi dos eslavos, nos Ourisks e nos Brownies da

Escócia, nos Poulpicans e nos Tensarpoulicts dos bretões, nos Cemis

dos caraíbas, numa palavra, em toda a falange de ninfas, de gênios

bons e maus, nos silfos, gnomos, fadas e duendes, com os quais

todas as nações povoaram o espaço. Encontramos a prática das

evocações entre os povos da Sibéria, no Kamtchatka, na Islândia,

entre os indígenas da América do Norte e os aborígenes do México

e do Peru, na Polinésia e até entre os estúpidos selvagens da Nova

Holanda.

Sejam quais forem os absurdos que cercam essa crença

e a desfiguram segundo os tempos e os lugares, não se pode discordar

de que ela parte de um mesmo princípio, mais ou menos deturpado.

Ora, uma doutrina não se torna universal, não sobrevive a milhares

de gerações, não se implanta de um pólo a outro, entre os povos

mais diversificados, pertencentes a todos os graus da escala social,

se não estiver fundada em algo de positivo. O que será esse algo? É

o que nos demonstram as recentes manifestações. Procurar as

relações que possam existir entre tais manifestações e todas essas

crenças, é buscar a verdade. A história da Doutrina Espírita, de

certo modo, é a história do espírito humano; teremos que estudá-la

em todas as fontes, que nos fornecerão uma mina inesgotável de

observações tão instrutivas quão interessantes, sobre fatos

geralmente pouco conhecidos. Essa parte nos dará oportunidade

de explicar a origem de uma porção de lendas e de crenças populares,

delas destacando o que toca a verdade, a alegoria e a superstição.

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No que concerne às manifestações atuais, daremos

explicação de todos os fenômenos patentes que testemunharmos

ou que chegarem ao nosso conhecimento, quando nos parecerem

merecer a atenção de nossos leitores. De igual modo o faremos em

relação aos efeitos espontâneos que por vezes se produzem entre

pessoas alheias às práticas espíritas e que revelam, seja a ação de

um poder oculto, seja a emancipação da alma; tais são as visões, as

aparições, a dupla vista, os pressentimentos, os avisos íntimos, as

vozes secretas, etc. À narração dos fatos acrescentaremos a

explicação, tal como ressalta do conjunto dos princípios. A respeito

faremos notar que esses princípios decorrem do próprio ensinamento

dado pelos Espíritos, fazendo sempre abstração de nossas próprias

idéias. Não será, pois, uma teoria pessoal que exporemos, mas a

que nos tiver sido comunicada e da qual não seremos senão meros

intérpretes.

Mel

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