Diferentes Sortes

trevo_72dpiChamava-se Rodrigo e era filho de um sitiante das redondezas. Não era espírita, mas de tanto ouvir falar dos atendimentos e dos esclarecimentos que Joaquim oferecia na Cabana das Flores, resolveu lhe fazer uma visita. Mas não o fez durante os trabalhos da Casa, porém numa tarde morna de outono, em que o médium estava produzindo umas infusões medicinais.
Benedito o atendeu ao portão e o convidou para entrar, conduzindo-o ao “pequeno laboratório”, onde Joaquim se encontrava preparando infusões.
Como sempre, muito hospitaleiro, Joaquim o recebeu com afabilidade e o convidou a sentar-se.
— Seu Joaquim, eu decidi procurá-lo, porque estou muito revoltado com a vida e queria que o senhor me explicasse umas coisas que não me entram na cabeça, de jeito nenhum — disse ele, com um tom de voz que sugeria contrariedade.
— De que se trata, meu filho?
— Minha revolta, seu Joaquim, é de ver que as coisas nunca funcionam direito para mim. Só dão certo para o meu irmão e isto já está me deixando até com raiva dele.
— Calma, meu rapaz! Você pode me explicar isso melhor?
— Bom, o senhor sabe que eu tenho um irmão chamado Guilherme. Ele é um pouco mais moço do que eu, mas a diferença de idade entre nós não chega nem a um ano.
— Sei, sei! — afirmou Joaquim, que conhecia os rapazes desde que eram crianças.
E Rodrigo narrou a seguinte história:
Ele e o irmão haviam sido criados do mesmo jeito, com as mesmas oportunidades de estudo, que o pai fez questão de lhes dar. Mas, desde criança, as melhores sortes sempre estiveram ao lado de Guilherme. Este, mesmo estudando menos do que Rodrigo, sempre tirou as melhores notas na escola e foi o aluno preferido das professoras.
Depois, quando chegou a época dos namoros de adolescência, Guilherme sempre conseguia a atenção das meninas mais bonitas e interessantes. Rodrigo não arrumava, segundo suas palavras, nada que prestasse. E cresceram assim, com esta visível diferença de sorte.
Quando foram procurar trabalho na cidade, já que não queriam se submeter à vida sacrificante da roça, o Guilherme conseguiu um ótimo emprego, no qual se encontrava trabalhando há mais de dez anos. Rodrigo só conseguiu quebra-galhos e já havia mudado de ocupação umas vinte vezes. Por mais que tentasse evitar, sempre se envolvia em conflitos com a chefia ou com os companheiros de trabalho.
A mesma coisa aconteceu no casamento. O Guilherme se casou com uma moça bonita, inteligente e ajuizada. Teve três filhos maravilhosos e uma família de causar inveja a qualquer um.
Rodrigo se casou com uma moça sem juízo, que o trocou pelo primeiro conquistador que a cerceou e depois disto ele perdeu a confiança nas mulheres e não se acertou com nenhuma outra, apesar das inúmeras tentativas de construir um novo lar.
— Não tenho filhos — disse ele. — Não tenho casa própria, não tenho emprego fixo… Enfim, Deus tem negado para mim tudo aquilo que o Guilherme tem de sobra na vida dele. Como é que se explica isto, seu Joaquim? Como pode Deus gostar mais de uma pessoa do que da outra? Dar tudo para um irmão e negar tudo para o outro? Onde estão a justiça e a imparcialidade divinas de que vocês religiosos tanto falam?
Ao terminar a narrativa, Rodrigo se mostrava transtornado. Olhava fixamente para Joaquim, como a exigir uma resposta convincente.
Com sua costumeira paciência, Joaquim retribuiu àquele olhar interrogativo, com serenidade. Apontou para o alto o dedo indicador e falou num tom de voz quase sussurrado:
— Ele é soberanamente justo e bom! Por favor, meu filho, não ouse duvidar nunca dessas palavras que lhe digo!
— Mas, seu Joaquim… — quis argumentar o rapaz, como se pretendesse reiniciar o discurso, mas logo desistiu.
— Rodrigo, meu filho! Deus é tão justo e tão bom, que nos permite viver eternamente para quitarmos as dívidas morais, contraídas a custa de nossos deslizes, ao longo da caminhada. Profundo conhecedor das nossas limitações, não age como um cobrador rude, implacável e cruel, pressionando-nos a pagá-las dentro de um prazo estipulado às suas expensas.
— Do que o senhor está falando, afinal, seu Joaquim? O que são dívidas morais?
Então, o médium apanhou O Livro dos Espíritos e o folheou até encontrar a pergunta 629: “Que definição se pode dar à moral?”
— Ouça, isto, Rodrigo: “A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando faz tudo pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus”.
Como Rodrigo continuasse a olhá-lo com ar de pouco entendimento, Joaquim explicou-lhe:
— A lei moral é uma das imutáveis leis divinas e consiste em nos recompensar pelo bem que praticamos e nos punir pelo mal que fazemos aos outros. É uma lei simples, porém infalível.
— Mas o que é, verdadeiramente, o bem e o mal? — perguntou Rodrigo.
Joaquim não precisou nem mudar de página, pois esta é a pergunta 630 de O Livro dos Espíritos.
— “O bem é tudo o que é conforme a lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringir esta lei.”
E Joaquim esmiuçou a explicação:
— Rodrigo, para sabermos se o que estamos fazendo está conforme a lei de Deus, Jesus nos ensinou uma regra muito simples. Basta perguntarmos a nós mesmos se gostaríamos que fizessem conosco aquilo que pretendemos fazer aos outros. Se a resposta for negativa, devemos simplesmente nos abster de fazê-lo. Agindo assim, nos furtamos de contrair dívidas morais. Vê como é simples?
— Mas, seu Joaquim, eu não sou nenhum santo, mas também não sou uma pessoa má. Não sou pior do que o meu irmão, por que então temos essas sortes tão diferentes?
— A explicação, meu filho, está na justiça da reencarnação. Sendo o homem um ser imperfeito, buscando o crescimento moral, através das múltiplas encarnações e das experiências adquiridas com o correr dos anos, é natural que traga muitas dívidas morais, contraídas ao longo dessas tantas vivências. Você, o seu irmão e todos nós que nos encontramos encarnados neste momento, não estamos vivendo a nossa primeira experiência encarnatória. Já estivemos aqui antes, muitas vezes, e voltaremos outras tantas, para prosseguirmos nesta escalada, rumo ao aperfeiçoamento.
— Quer dizer que a minha dívida moral é maior que a do meu irmão?
— Talvez, sim; talvez, não! Como eu lhe disse anteriormente, Deus não é um cobrador implacável e impaciente. Ele nos concede todo o tempo de que necessitamos para saldarmos os nossos débitos. Mas, à medida que vamos nos conscientizando dessa necessidade, nós mesmos começamos a desejar quitar essas dívidas o mais rapidamente possível, para nos livrarmos do peso imenso que elas representam.
— Quer dizer, então, que somos nós que escolhemos a forma de pagamento da nossa dívida moral? — perguntou Rodrigo, entrando de vez no assunto.
— Digamos que seja mais ou menos assim — respondeu o médium. — Quando o homem desencarna e se encontra frente a frente com as conseqüências de suas más atitudes, é natural que se arrependa e peça para reparar suas faltas. Então é definido o tipo de prova pela qual ele vai ter que passar ao longo da próxima encarnação.
— Mas, neste caso, não é natural que o homem escolha sempre provas mais leves?
— Não exatamente, porque, desencarnado, o Espírito encara as suas dívidas como um peso enorme do qual ele precisa se livrar. Ao ver a felicidade dos Espíritos que se encontram moralmente mais adiantados, ele sente uma vontade imensa de se adiantar também. Por isso acaba, muitas vezes, escolhendo provas mais pesadas do que pode realmente suportar.
— O senhor quer dizer que eu posso não estar suportando o peso da cruz que escolhi para carregar nesta vida?
— Rodrigo, meu filho, deixe-me lhe explicar uma coisa: todos nós estamos marchando em direção a Deus. Uns mais rapidamente, outros mais devagar, mas todos nós, sem exceção, chegaremos lá um dia. O importante é termos essa consciência e não nos desesperarmos, nem nos revoltarmos contra Deus, porque o culpado dos nossos sofrimentos somos nós mesmos. Deus não nos castiga à toa! Se o faz, é porque nós merecemos e pedimos estas provações, acreditando que teríamos forças para suportá-las. Creia mais na bondade do nosso Pai celestial e acredite também na sua capacidade de superação. Não seja tão pessimista e não inveje o seu irmão. Também ele não tem culpa dos seus sofrimentos, pois como disse Jesus: “A cada um será dado de acordo com as suas obras”.
— Mas, o que eu devo fazer, seu Joaquim?
— Não desanime! Jamais desista dos seus projetos de vida. Tenha fé, e siga sempre em frente, mais cedo ou mais tarde, as coisas podem começar a se reverter em seu favor.
E Rodrigo foi embora bastante pensativo.
No domingo seguinte, lá estava Rodrigo, sentado na primeira fileira de bancos, para assistir à palestra de Joaquim.
Mais tarde, ele passou por uma avaliação espiritual, onde foi constatada uma pesada dívida cármica. Rodrigo havia sido, na encarnação anterior, um mercador de escravos e praticamente todas as pessoas de seu convívio atual haviam padecido horrores em suas mãos. Tratava-se de um caso bem complicado.
Através de um convívio pacífico, o rapaz ia conseguindo abrandar a revolta de algumas de suas antigas vítimas, mas muitas não o conseguiam perdoar e sentiam um prazer inconsciente em fazê-lo sofrer. Exemplo disso foi o da esposa que o traiu e o abandonou, logo após o casamento.
No ambiente de trabalho, não era diferente. Por onde quer que fosse Rodrigo se via cercado de inimigos que, também inconscientemente, davam logo um jeito de se livrarem de sua irritante presença, provocando atritos, com o intuito de forçar a sua demissão ou o induzindo a se demitir.
Estava explicado: as coisas não fluíam na vida dele, porque o pedido feito antes da encarnação era de conviver com o maior número possível de vítimas de seu passado delituoso e reparar quantas faltas fossem possíveis.
Definitivamente, a vida de Rodrigo deveria ser mesmo de doação, renúncia e abnegação. No entanto, protegido pela lei do esquecimento e completamente afastado das práticas espirituais que poderiam auxiliar no intercâmbio entre ele e o Espírito guia que deveria orientá-lo, o rapaz começou a ver em suas antigas vítimas, os seus atuais algozes e por isso andava tão revoltado, complicando ainda mais o seu já tão complicado pretérito.
Sem entrar em maiores detalhes, para não provocar qualquer constrangimento desnecessário, Joaquim o submeteu a um rigoroso tratamento, já que o rapaz estava desempregado e, sem perspectivas de se manter na cidade, pretendia passar uma temporada no sítio dos pais.
Sentindo os benefícios auferidos no tratamento, Rodrigo a ele se submeteu com visível alegria. Alguns obsessores mais tenazes, ou seja, antigas vítimas de suas maldades, que continuavam desencarnadas e que o perseguiam implacavelmente, foram afastadas ou deliberadamente deram-lhe uma trégua, após serem conscientizadas, durante o tratamento espiritual, sobre as suas lastimáveis condições de perseguidores.
Então, Rodrigo decidiu permanecer naquela região, auxiliando o pai a administrar a pequena propriedade, onde cultivavam hortaliças que eram vendidas numa cooperativa.
Ele não voltou a constituir família, mas, seguindo as boas orientações de seu guia espiritual e conselhos dados por Joaquim, tornou-se provedor de um orfanato, doando uma parte da produção do sítio para aquela instituição.
Um pouco antes de completar 50 anos, Rodrigo sofreu um infarto fulminante e morreu sozinho, no meio de um capinzal. Seu corpo só foi encontrado uma semana depois, em adiantado estado de putrefação.
Seis meses depois, numa sessão mediúnica, ele se manifestaria através de Benedito, demonstrando muita gratidão a Joaquim.
— Tive autorização para vir lhe agradecer — disse ele. — Os seus esclarecimentos foram de suma importância, e minha situação hoje só não é tão ruim, por causa do seu auxílio. Sei que tenho ainda muito que reparar, mas graças ao senhor, consegui dar os primeiros passos rumo à minha libertação espiritual. Deus lhe pague por tudo, seu Joaquim!
E Joaquim, emocionado com a manifestação de carinho, apenas disse:
— Agradeça a Deus, meu filho! Não lhe disse que Ele é justo e bom? Cuide-se, que do lado de cá, estaremos sempre nos lembrando de você em nossas preces!

(Extraído do romance Escola de Almas; Roberto de Carvalho; Editora Aliança; 2009)




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Sobre o Autor

Roberto de Carvalho

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Roberto de Carvalho é membro da Academia Guanabarina de Letras, do Ateneu Angrense de Letras e Artes e da Academia de Letras da Grande São Paulo. Autor de obras próprias e mediúnicas; sua produção inclui romances, contos, poesias, literatura infantil e juvenil. Alguns livros publicados: Uma História de Perdão / A Cabana das Flores / Alianças de Junco / Cicatrizes na Alma / Escola de Almas / Na Trilha do Passado / O Cultivador de Sonhos / O Pequeno Médium / O Semeador / Sem o Véu das Ilusões.

One Comment em “Diferentes Sortes”

  • Catarina publicado em 20 outubro, 2009, 11:59

    Gostei muito do que li, e neste exato momento serve muito p. mim, pois muitas vezes não entendemos porque temos que passar por certos sofrimentos.

    Não é fácil, mas temos que ter esperança e nunca nos entregarmos.
    Obrigado pela mensagem

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